Beirando o Polo Sul num cruzeiro de expedição

Depois de percorrer 42 países, muitos deles viajando sozinha, resolvi me jogar num sonho: embarcar num cruzeiro de expedição.

Mas o que seria esse tipo de viagem com nome tão aventureiro?

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Basicamente, quem já viajou pelo mar sabe que navios para turismo convencional contam com sala de jogos, piscina, spa, cassino e até teatros com shows diários, para entreter seus visitantes entre um destino e outro.

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O navio é de expedição, porém com muito luxo e conforto

Se prepare para paisagens e experiências de tirar o fôlego, como andar num pequeno bote sobre uma imensidão congelante de água salgada - patagônia chile argentina australis cruzeiro

Se prepare para paisagens e experiências de tirar o fôlego, como andar num pequeno bote sobre uma imensidão congelante de água salgada.

Num cruzeiro de expedição isso não acontece – e por um ótimo motivo: o navio é menor, não existe todo esse “entretenimento”, porém você alcança regiões remotas do globo com o auxílio de um staff especializado, de biólogos, antropólogos e historiadores, explicando detalhadamente o que você encontrará nessas regiões que poucos viajantes se atrevem a percorrer.

Interessante, não?

Pois bem, embarquei no Stella Australis pelo simpático porto de Ushuaia, local com uma das vistas mais impressionantes da vida:

Vista do Porto de Ushuaia - Argentina - minutos antes de zarpar no cruzeiro de expedição pelas águas geladas da Antártida Argentina e Chilena - Australis - Viagem - Fim do Mundo - Turismo - Aventura

E essa vista? Uma recepção dessa no navio é para guardar na memória.

Assim que entrei, num check-in muito organizado e rápido, fui direto para minha cabine, onde descobri que não teria televisão, rádio com programação externa e internet pelos próximos quatro dias.

Isso pode parecer chocante para pessoas viciadas em conexão, como eu, mas foi a cereja do bolo dessa experiência – explico melhor já já.

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Cabine com duas camas de solteiro no Stella Australis. O novo navio, Ventus, começa a rodar no início de 2018 com características similares: conforto e funcionalidade.

A cabine é bem confortável e tem uma janela enorme, que é incrível para contemplar a natureza selvagem da região. Apesar de percorrer um local muito frio, o clima dentro da embarcação é ótimo, dando para ficar de legging e malha numa boa.

DETALHE IMPORTANTE PARA EXCURSÕES: Não se esqueça de levar um óleo facial vegetal, um creme hidratante corporal denso, bálsamo labial poderoso – usei Burt’s Bees e Cicaplast + uma camada de Ruby Woo – MAC Cosmetics – para não deixar meus lábios em contato com os ventos gelados da região. Se você não se proteger corretamente – inclusive com protetor solar – vai sentir a pele descamando e ardendo. Também use óculos escuros, por causa da neve, luvas e sapatos impermeáveis e jaqueta corta vento. Esse será seu kit de sobrevivência.

Outro detalhe do Stella: não tem elevador! O navio passa por locais de ondas pesadas, balançando consideravelmente, o que te embala muito bem durante o período de descanso, mas que não combina com elevador. Ok, se você enjoa em viagens no mar, aconselho procurar um médico para indicar alguma substância para amenizar o problema.

Eu não enjoei durante, mas após sair do Australis bem que fiquei dois dias me sentindo meio tonta.

Enfim, hora de zarpar!

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Calafate Sour: drink patagônico para animar o cruzeiro de expedição. O calafate é um tipo de berry da região.

A primeira noite teve um jantar animado e brinde no deck superior com “Calafate Sour”, drink com pisco e calafate, um tipo de berry da região patagônica. Do lado de fora, atravessamos o Canal de Beagle e chegamos, de madrugada, no mítico Cabo Horn.

A parte mais desafiadora para mim? Acordar seis horas da manhã após ficar batendo papo (cheers!) com os meus amigos de aventura até uma da manhã!

Ok, mas valeu o sono investido, pois o nascer do sol no pontinho de terra que está mais perto do Polo Sul é lindo! Lindo e selvagem, aliás, porque a ventania ali é intensa!

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Outra imagem que vai ficar na memória: um nascer do sol bem no mítico Cabo Horn – exatamente no fim do mundo mesmo!

A melhor definição: Cabo Horn é exatamente onde o vento faz a curva!

O mar estava agitado no ponto de desembarque, que acontece em botes chamados Zodiacs, então não deu para visitar o farol, a Capela Stella Maris e o Monumento ao Cabo Horn, mas com isso conseguimos navegar ao sul do cabo, algo muito difícil de acontecer e que empolgou a tripulação.

Observando a passagem de Drake, parte do Oceano Antártico com as piores condições climáticas do mundo e cenário de contos sinistros sobre naufrágios, que aconteceram em abundância na época de exploração e descobrimentos, deu para ter a real noção de como somos pequenos dentro de tanta força natural. É hipnotizante!

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Passagem de Drake: navegando por ali você se torna um explorador de verdade!

O navio balançava bastante, mas não dava medo e sim respeito: um grande respeito pela natureza dar a possibilidade de estarmos ali vendo o mar, a fauna e sentindo os ventos gelados de um lugar tão histórico.

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Durante todo o cruzeiro a vista é linda desse jeito: com ótimos momentos para pensar e fotografar

E esse foi o dia de visitar também a Cabine de Comando e navegar pela Bahia Nassau, ancorando na belíssima Bahia Wulaia, local dos maiores assentamentos Yamana (povo da Terra do Fogo que citei no artigo sobre Ushuaia).

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Bahia Wulaia: a casa dos Yamana e passagem de Darwin

A região foi descrita por Charles Darwin e desenhada pelo Capitão Fitz Roy em 1830.

Nessa parada linda você pode optar por três tipos de caminhada: a leve, a moderada e a intensa. Como a intensa era bem rápida, sem momentos para contemplar e fotografar, fui de moderada mesmo – e claro que fiz isso também porque não tinha certeza se ia aguentar a subida.

Foram seis quilômetros (ida e volta) por um bosque magalânico com árvores que observaram Darwin andar por ali – me senti muito especial agora!

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Num cruzeiro de expedição a melhor parte é se sentir protagonista numa história de aventura

E como grande presente, após essa subida mágica, avistei o navio lá longe, numa vista inesquecível!

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Essa é a vista da caminhada moderada. Quem opta pela mais difícil vai ainda mais alto.

Voltando para o calorzinho do navio, pois fora o vento era bem gelado, jantei king’s crab gratinado, uma das delícias mais desejadas da Patagônia. E o serviço por lá também engloba ótimos vinhos regionais – vale cada golinho.

No penúltimo dia de expedição foi momento de acordar cedo mais uma vez (7h30), porque nesse passeio quem quer aproveitar tudo precisa pular cedo da cama.

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GPS: quando estiver no Fim do Mundo, abra o Google Maps para observar onde você chegou

Depois de ondas intensas num pedacinho do Pacífico, navegação pelo Canal Cockburn, Magdalena e Fiorde Keats entrando no Seno Agostini, nomeado em homenagem ao padre salesiano italiano que viveu entre os habitantes nativos da região.

Sobre a falta de internet que prometi falar no começo: em alguns pequenos momentos, de maior proximidade com a costa, é possível encontrar sinal de operadoras argentinas e chilenas, conforme informaram os tripulantes. Mas quer saber a verdade? Mesmo com essa possibilidade em alguns momentos, se programe para desconectar! No começo vai dar uma ansiedade grande, já que estamos cada dia mais apegados ao 3G/4G – Whatsapp – Facebook, mas depois tudo melhora e você consegue fazer uma conexão ainda mais difícil: com você mesmo e com pessoas que acabou de conhecer e estão aproveitando tanto quanto você! Se jogue nessa experiência.

Enfim, depois de muitas aventuras e sentimentos, hora de encarar o passeio mais esperado: ver um glaciar!

Descemos sob muita neve, que em alguns momentos se transformou em chuva, e caminhamos por uns dez minutos até dar de cara com uma das estruturas naturais mais lindas que já vi: O Glaciar Aguila!

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Foi o que me falaram: por fotos não dá para ter a ideia do azul e da magnitude dessa geleira rodeada por montanhas e uma floresta fria e úmida da Patagônia.

No início do quarto e último dia de cruzeiro foi outro grande momento da expedição, pois desembarcamos na Ilha Magdalena, no Estreito de Magalhães, para observar uma gigante colônia de pinguins e um farol no alto, que orienta as embarcações que passam pelo famoso Estreito – com certeza você já ouviu falar dele nas aulas de história.

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Nossos amigos pinguins: mais populares que Beyoncé

Depois desse encontro com os simpáticos bichinhos, hora de aproveitar um dia de descanso na simpática cidade chilena de Punta Arenas.

Para quem gosta de aventura e experiências turísticas nada óbvias, esse passeio é obrigatório!

Fotos: Paula Roschel.