O poder da doula

Seguindo nossa agenda de posts relacionados ao bem-estar físico e emocional da mulher, agora é hora de conversar com a psicóloga pela Universidade Presbiteriana Mackenzie Raquel Jandozza. Nosso papo será sobre o parto e a doula.

A profissional também é especializada em psicanálise lacaniana pela PUC-SP, doula, coach ontológica pelo Instituto Appana e criadora do projeto Pré-Natal Emocional  sobre Parto Humanizado e o papel das doulas nesse momento.

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JornaldamodA – Por que a maioria dos médicos recomenda o parto normal? Quais são suas vantagens para a mãe e o bebê?
Raquel Jandozza – O Parto Normal é aquele fisiológico, ou seja, aquele para qual mãe e bebê são biologicamente preparados. Sendo assim, os benefícios do Parto Normal tem impacto direto na saúde de ambos. Por ser seguro, pois se trata de algo natural e não cirúrgico como no caso da cesárea, o parto normal evita riscos materno-fetal como infecções, hemorragias, morbidade pela anestesia etc.
Os benefícios para mãe e bebê são vários. Podemos listar alguns, por exemplo, para o bebê o processo de passagem pelo canal vaginal o auxilia e previne complicações respiratórias, uma vez que toda a compressão exercida no processo favorece a expulsão de todo o líquido dos pulmões do bebê conferindo maior vitalidade respiratória logo após o nascimento, evitando internações UTI neonatal por esse motivo, um dos mais comuns para tal. Já para a mãe, além de evitar todos os riscos já descritos, a recuperação física e emocional de um Parto Normal é indiscutivelmente melhor e mais rápida, propiciando à mulher melhor condição física para cuidar do seu bebê e de si mesma.

JornaldamodA – E por que existem tantos casos de cesárea? Qual a posição do Brasil nesse ranking e qual seria o ideal?
Raquel – Segundo dados do Mapa Assistencial divulgado em julho de 2016 pela ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar), as taxas de cesarianas no Brasil são três vezes maior que a média de países como Alemanha, Espanha, EUA e França, entre outros da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).
Os dados do Mapa ainda apontam que no período de levantamento das informações, no Brasil, quase 85% dos nascimentos foram partos cesáreos, contra cerca de 28% nos 34 países que fazem parte da OCDE.
A alta taxa de cesárea no Brasil deve-se principalmente ao sistema de remuneração médica, que veladamente oprime todo o sistema a aderir a cesáreas agendadas para que haja sustentabilidade econômica do consultório e carreira. Nos hospitais, inclusive, a lógica é semelhante, uma vez que os custos e rentabilidades estão em jogo.
As cesáreas ocupam o centro cirúrgico, por “x” tempo, por vezes muito menor que o tempo que demanda um parto normal. Sendo assim, preferem investir em centros cirúrgicos que custam mais aos clientes e geram lucro mais rápido, do que investir em salas de parto normal que custam menos, mas podem ser ocupadas por mais tempo. Contudo, se todo o sistema humanizar o atendimento e os serviços, todos terão seus lugares, rendimentos e serviços garantidos no sistema obstétrico e principalmente, mãe e bebê, desfrutarão de maior qualidade de assistência ao parto e nascimento. A causa é de todos.
A cesárea quando necessária é muito bem vinda e salva vidas. Há casos que a cesárea é a única opção: Placenta Prévia, Bebê em Posição Transversa (atravessado na barriga da mãe) e nos casos de Herpes Genital com lesões ativas no início do trabalho de parto. Nesses casos recomenda-se a cesárea, pois mãe e bebê correm sérios riscos de complicações e até morte.

JornaldamodA – É recomendado que o bebê seja amamentado até meia hora após o parto, correto?
Raquel – A ocitocina, hormônio liberado durante o trabalho de parto normal, responsável pela contração uterina, é essencial também para a amamentação, pois estimula a produção da prolactina, que por sua vez, encarrega-se da produção do leite materno. Conhecido também como o hormônio do amor, a ocitocina está também relacionada às sensações de prazer e carinho, e por isso favorece um vínculo afetivo maior entre mãe e bebê. Percebe-se que o trabalho de parto normal encadeia um processo fisiológico que prepara todo o corpo da mulher para tornar possível o nascimento, a sobrevivência, a nutrição e o acolhimento físico e emocional do bebê.

JornaldamodA – E o que é o parto humanizado?
Raquel – O “Parto Humanizado” precisa ser compreendido como um processo e não como um produto ou tipo de parto. Trata-se de uma concepção que impacta as condutas de assistência perinatal. O parto humanizado é aquele que respeita a fisiologia natural da gravidez, parto, nascimento e, acima de tudo, considera a mulher como participante ativa em todo o processo, fornecendo a ela informações e poder de escolha sobre procedimentos e intervenções que possam ser necessárias. A equipe de parto e doula são figuras que estão em cena para auxiliar a mulher no que ela quiser e realmente necessitar, do contrário compreende-se o parto como um evento fisiológico perfeito, onde em média apenas 15% das gestantes apresentam algum tipo de intercorrência clínica e de saúde que demandam cuidados especiais.

JornaldamodA – E o que seria a violência obstétrica que tantas mulheres têm falado em fóruns de mães? Como evitar que isso ocorra?
Raquel – A Violência Obstétrica, segundo a própria Defensória Pública/SP (2013), “caracteriza-se pela apropriação do corpo e processos reprodutivos das mulheres pelos profissionais da saúde, através do tratamento desumanizado, abuso da medicalização e patologização dos processos naturais, causando a perda de autonomia e capacidade de decidir livremente sobre seus corpos e sexualidade, impactando negativamente na qualidade de vida das mulheres”. Sendo assim, independente de tratar-se de um parto normal ou cesárea, diversas gestantes e parturientes diariamente sofrem algum tipo de violência. As mais comuns são humilhações e constrangimentos, submissão a procedimentos dolorosos sem consentimentos e/ou informação, ausência de analgesia e até mesmo negligência.
Um modo de evitar que isso ocorra é se informar de seus direitos como mulher e gestante. Conhecer e obter muita informação sobre a gravidez, parto e pós-parto e as principais intervenções necessárias e desnecessárias nesses processos para ter respaldo e impor a voz e a garantia de direitos sempre que necessários. Contudo, uma vez sofrida a violência, a denúncia é primordial tanto quanto o acolhimento e amparo à vítima para que o dano causado tenha o menor impacto negativo possível.

JornaldamodA – E para você, qual o papel e importância da Doula no bem-estar da mulher e do bebê antes, durante e depois do parto?
O principal papel da Doula é estar com a gestante oferecendo desde o início do acompanhamento, muita informação além do preparo físico e emocional para o parto e pós-parto. Durante o trabalho de parto, a Doula é aquela que oferta suporte físico e não farmacológico, como massagens, por exemplo, para alívio das dores durante as contrações, além de orientar melhores posições e técnicas de relaxamento que podem favorecer maior conforto durante o trabalho de parto.
Além disso, a Doula é a profissional que vai estar com a gestante e o casal durante todo o processo e trabalho de parto e, dessa forma, propiciará apoio emocional e afetivo. A palavra Doula, de etimologia grega, significa “aquela que serve” e essa definição representa o que de fato faz uma Doula no trabalho de parto, ela serve à mulher.
Cabe ressaltar, que a presença das doulas, segundo pesquisas, já reduz em média 50% das taxas de cesáreas e 20% do tempo de duração de um trabalho de parto. E, diferente do que muitas pessoas pensam, por desconhecerem nossa atuação, a doula não faz e não interfere em nenhuma conduta médica ou técnica.
No Pós-Parto, a Doula estende seus cuidados às mulheres em um período também de muita vulnerabilidade física e emocional, o puerpério. Nesse período, mãe, bebê e toda a família ainda estão se adaptando à nova rotina e ao novo ser que passa a fazer parte de suas vidas. Muitas mulheres se vêem perdidas com tantas dúvidas e situações inéditas, que somente o dia a dia com o bebê pode fazer surgir. Nesse caso, ela pode contar com o auxílio da Doula pós-parto, que estará ali para ofertar uma série de serviços, como massagens, orientações e estratégias que vão desde a organizar a rotina familiar, passando pela rotina com o bebê, apoio à amamentação, até cuidados com a alimentação da mãe e, por que não, ofertar aquela companhia gostosa, com um relaxante escalda-pés.
A Doula pós-parto surge a partir da necessidade da mãe e a profissional pode ofertar além dos serviços, de acordo com seu repertório de formação, muita compreensão e acolhimento emocional.

Foto: Pixabay.